quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Jorge Louro
Amo-te com a coragem de um cobarde. Quero magoar-te e tu deixas, e eu sinto-me um soldado numa festa de crianças. Quero dar-nos um tempo e tu aceitas, e eu fico louco e baralhado e já não quero e amo-te outra vez, mas agora ainda mais. E quando te encontro sou gelatina a escorregar pelos dedos do destino: 

- Sim, estou bem. Mais tempo para mim, as minhas coisas, sabes como é. E contigo?

- Sinto a tua falta, mas vou andando. Tens aproveitado bem o tempo?
- Sim, com várias coisas. Fiz surf com crianças autistas na praia do ramalhão. 
- Isso é fantástico.
- Sim, sem dúvida. Também fiz uma viagem a África, onde chorei a ver o pôr-do-sol depois de sair do hospital de campanha onde estive toda a noite a fazer voluntariado.
- Bem, estás diferente. Queres ir jantar comigo para me contares essas aventuras?
Nem valeu a pena dizer-lhe que talvez aquilo fosse tudo mentira. Nem valeu a pena dizer-lhe que, entre nós dois, era ela quem o faria. Nem valeu a pena dizer-lhe que eu era apenas capaz de lamber o chão que ela pisava. Que estaria apenas disposto a fazer voluntariado, com ela, debaixo dos lençóis. Mantive a pose – apesar da ausência de coluna vertebral –, acendi um cigarro e disse:
- Deixa-me ver. Tinha combinado uma coisa, mas posso adiar.




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