Jorge Louro
Amo-te com a coragem de
um cobarde. Quero magoar-te e tu deixas, e eu sinto-me um soldado numa festa de
crianças. Quero dar-nos um tempo e tu aceitas, e eu fico louco e baralhado e já
não quero e amo-te outra vez, mas agora ainda mais. E quando te encontro sou
gelatina a escorregar pelos dedos do destino:
- Sim, estou bem. Mais
tempo para mim, as minhas coisas, sabes como é. E contigo?
- Sinto a tua falta, mas
vou andando. Tens aproveitado bem o tempo?
- Sim, com várias
coisas. Fiz surf com crianças autistas na praia do ramalhão.
- Isso é fantástico.
- Sim, sem dúvida.
Também fiz uma viagem a África, onde chorei a ver o pôr-do-sol depois de sair
do hospital de campanha onde estive toda a noite a fazer voluntariado.
- Bem, estás diferente.
Queres ir jantar comigo para me contares essas aventuras?
Nem valeu a pena
dizer-lhe que talvez aquilo fosse tudo mentira. Nem valeu a pena dizer-lhe que,
entre nós dois, era ela quem o faria. Nem valeu a pena dizer-lhe que eu era
apenas capaz de lamber o chão que ela pisava. Que estaria apenas disposto a
fazer voluntariado, com ela, debaixo dos lençóis. Mantive a pose – apesar da
ausência de coluna vertebral –, acendi um cigarro e disse:
- Deixa-me ver. Tinha
combinado uma coisa, mas posso adiar.


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