quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CEMITÉRIO
Tenho horror a hospitais, os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte, mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço, não há flor bonita em campo santo.
Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento.
Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram a minha estima e perderam. Quando um tipo vai além de todas as medidas e de facto me machuca, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério, nele não existe jazigo de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau caráter.
Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.
Raros enterros, ainda bem! De um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, foi por demais interesseiro, falso, se achou superior, hipócrita, arrogante, a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, homens e mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
Encontro na rua [ou na internet] um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas.

Sigo adiante e o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.

JORGE AMADO


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